uma carta saudosa a 2023 e outra, esperançosa a 2024


pensar o que desejo para o ano que está prestes a começar só é possível na medida em que também contemplo tudo o que aconteceu neste outro, que termina.

se em 2023 eu tivesse sido um lugar, seria o deserto do Atacama. sim, um dos lugares mais secos e áridos do mundo, mas onde, em raras vezes, chove. e quando chove, nascem as mais lindas flores cor de rosa.

os momentos dolorosos existiram esse ano, períodos de seca total ou quase total. me senti perdida, como aquele que olha a sua frente e só vê uma planície infinita de areia. nada mais. era como estar perdido no deserto mesmo. coloquei em questão coisas que, antes, eram certeza absoluta. agora entendo a importância de todas as vezes em que coloquei uma interrogação ao invés de um ponto final.

mas a chuva veio, e quando veio, veio com toda a força. a esperança, as possibilidades, os encontros e os amores. eles vieram e pude provar dos diferentes gostos que precedem o amargo, que carregam ele no fundo, mas que também me apresentaram tantos outros sabores que eu não conhecia.

e depois, as flores. eu floresci. sinto que venho me tornando quem eu sou. encontrando meu caminho em um mar de possibilidades. onde antes havia uma rota única, agora há um leque de outras coisas mais. sabendo o que é importante pra mim e o que não abro mão, olho, esperançosa, para o ano que se inicia. que 2024 seja o cenário para eu construir, ainda, a minha história.

aceitar ou renunciar


aceitar só é uma escolha quando há também a possibilidade da renúncia. a sensação de estar caminhando por uma corda bamba, equilibrando-me nela, tentando ponderar sobre qual dos dois lados vou me lançar. o lugar do “sim” soa como ganho, alguma coisa chega, algo entra, uma oportunidade se abre, esperança e possibilidades. já o “não” vem como a renúncia, o desprender, o fechar a porta, uma espécie de barreira que limita e que também protege.

nunca pensei que aceitar ou renunciar pudessem ser coisas tão difíceis de fazer. hoje me dei conta de que topar alguma coisa não significa ter a certeza ao que exatamente estou falando “sim”. talvez seja uma aposta, uma expectativa. mas não certeza. isso também parece valer pras renúncias, talvez nunca seja possível saber exatamente ao que se renunciou.

certo, existe o não saber sobre aquilo que se ganha e aquilo que se perde. mas, então, como conseguir caminhar rumo a uma decisão? quais são os outros balizadores para essa decisão? ganho e perda não podem bastar. penso em algumas coisas que podem ser úteis, como: minha vontade, que nem sempre caminha de acordo com meu desejo, uma memória boa o suficiente para não ser rancorosa demais e nem benevolente demais, um sentimento de mim mesma e de capacidades que carrego comigo, independente do aceite ou da recusa.

me dou conta do quanto dizer “não” parece carregar um peso grande demais, uma espécie de corrente que vou precisar carregar pra sempre. me ocorre também que, talvez, sejam os “nãos”, permeados com a possibilidade do “sim”, que me entreguem a chave necessária pra abrir o cadeado que me agarra a essa corrente.

segunda parte

alguns meses depois, você bateu em minha porta, esperando que eu não fosse abri-la. você carregava uma convicção que denunciava o quanto você sabia a respeito do que tinha feito comigo, do quanto tinha me machucado. você pediu desculpas e eu te desculpei, porque o tempo já havia curado aquela ferida. não, não foi o seu pedido de desculpas que a curou. então, em seguida, você me disse que estava dentro, caso eu topasse sair com você. saímos. a primeira coisa que você me perguntou, depois das formalidades, foi o que eu tinha feito naquele dia. fiquei decepcionada com a pergunta, mas pensei que, talvez, aquela também se tratasse de uma formalidade daquelas que a gente faz uso quando está meio sem jeito numa situação.

talvez eu tivesse a expectativa de falar coisas, você conectar mais coisas nas minhas coisas e irmos costurando alguma coisa que fizesse sentido. mas a conversa me deu a sensação de algo um pouco mecânico, um pouco superficial, uma pequena dose de nostalgia e camadas de outras coisas que ainda não sei o que eram. quando te contei do quanto aquela viagem havia me mobilizado e me transformado, você não entendeu o que eu disse. não que você precisasse entender, você poderia lançar perguntas curiosas, como quem quer saber mais daquilo. mas não foi assim.

por outro lado, o seu toque era bom, familiar e conhecido. acho que você também sentiu isso. e, um pouco cindida, topei atender o que uma parte de mim queria.

no dia seguinte, a angústia me visitou. não como já visitou antes, não do mesmo jeito e intensidade. uma angústia mais leve e de um tamanho menor. mas fiquei pensando o que ela quis me dizer ao aparecer. pensei sobre como ao estar ali com você, naquela fração de tempo, eu já intuía que o que viria depois seria um tipo de sentimento que vem quando eu traio a mim mesma.

a busca pelo encontro


que escorre pelos dedos.

estou virando experiente nas aulas sobre como cair.

havia acabado de cair e me levantei, continuei a vida, porque é assim que deve ser. mas talvez te encontrei cedo demais, me envolvi rápido demais. olhei pra você e não pensei que te desejaria com tanta vontade. mas, afinal, que vontade é essa?

olhei pra você com olhos de quero saber, me conta mais de você, você me faz lembrar de uma parte tão importante da minha vida. então, me conta mais de você. não sei se a gente se conectou tanto assim ou se sou eu exagerando no que eu vivi. gostei de você. gostei de quando você me protegeu naquela primeira vez. não gostei tanto de quando você fez isso na segunda, porque já não era igual.

você foi se tornando um companheiro de cartas enviadas pelo celular. você me contou de coisas da sua vida e da sua família, e eu me senti a vontade pra contar das minhas. talvez a gente tenha feito uma espécie de intensivo daqueles que as pessoas que querem se preparar para o vestibular fazem: conteúdo intenso em pouco tempo. e depois vem a prova, e as aulas acabam. é parada brusca. acho que com a gente foi assim: você foi se afastando, eu, talvez, também fui. eu percebi e te perguntei. você confirmou o que eu tinha percebido e a gente acabou mesmo sem ter começado.

ter te reencontrado criou a chance para ter uma conversa que talvez nem precisasse. fez com que eu me comportasse exatamente do jeito que eu já não quero mais. mas também me fez ter um tempo com você, gostar de estar com você. mas você me disse que a água é rasa, não dá pra mergulhar. seria pular numa armadilha e esperar não sangrar depois: é impossível.

repetir, recordar, elaborar e parar


era uma sexta-feira e eu já sabia o que ia acontecer.

eu havia planejado cada detalhe. era como assistir a um filme daqueles que você já viu tantas vezes, que até perdeu a conta.

eu me arrumei e me vesti com a mesma roupa daquela primeira gravação. um tempo depois, comecei a sentir um desconforto quando me olhava no espelho. eu dizia:

essa não sou eu. essa não sou mais eu. vou trocar de roupa e me vestir da verdadeira eu.

tirei aquela roupa e coloquei outra. ou melhor, tentei. um fio estava solto e eu não conseguia fechar o vestido. fiquei a pensar qual roupa, então eu usaria. não querendo pensar demais, voltei pra primeira.

eu estava vestida como a protagonista daquele velho filme. cheguei ao meu destino, acompanhada de uma amiga vestida de caos, e você estava lá. eu sabia que haveria um acerto de contas, que em algum momento eu te procuraria. sabia que beberia demais nesse dia. sabia que acordaria com brancos na memória. sabia que a pior conta a ser paga iria chegar só pela manhã, quando eu me desse conta do que eu mesma fiz. de como eu peguei os meus próprios dedos pra escrever a mesma história de sempre. e a tristeza por perceber do que eu ainda sou capaz. assusta perceber o que ainda carrego dentro. ou talvez me assuste mais perceber o quanto essa minha parte insiste em dominar.

eu vinha tentando. tentando duro. tentando criar e cuidar de outras partes minhas, mais bonitas, melhores pra mim. eu olhei para o espelho e reconheci, quando vestida com aquela primeira roupa, que aquela não era mais eu. e eu preciso acreditar que eu não sou mais predominantemente aquilo, mas preciso aceitar que aquele meu lado ainda está aqui dentro, em algum lugar. preciso me esforçar para ele não dominar, porque ao primeiro sinal, ele avança e me domina por completo.

me sinto mal comigo mesma e pelas situações nas quais ainda me coloco. a bagunça que tenho que limpar depois é tamanha, e eu geralmente preciso fazer isso sozinha. é a minha imagem refletida no espelho. sou eu olhando meus próprios olhos e tendo que sustentar tudo aquilo que eu fiz e que não queria. esse é o pior tipo de tristeza que é possível sentir: quando você mesma se machuca, sabendo que vai machucar.

é como pegar uma faca e pressionar fundo na pele. causar um estrago dos grandes. é como se eu quisesse me manter nesse lugar já conhecido e tão sofrido. será que há algum prazer nisso? será que isso é uma forma de punição? gostaria de entender.

perdida, tentando silenciar barulhos


quando pequena, se me imaginava aos 28 anos, me imaginava casada e com filhos. me imaginava trabalhando como minha mãe. me imaginava realizando todas as coisas que, naquela época, eu só encenava com as minhas bonecas.

hoje, aos 28 anos, percebo que nada aquilo se concretizou. em grande parte, me vejo seguindo e trilhando meu próprio caminho, o que também envolve deixar cair ideais e roteiros escritos por outras pessoas. o roteiro quem escreve hoje sou eu. e isso é libertador, mas também assustador.

tenho me perguntado o que quero fazer e o que não quero fazer. o que ainda quero experimentar. coisas pra fazer, pra saborear. tenho sentido medo de perder o timing das coisas. tenho sentido medo de ficar tempo demais procurando pela resposta, esperando pela resposta, e perder o trem da vida. talvez existam trens que passam apenas uma vez. talvez não. eu não sei. me sinto perdida como talvez nunca tenha me sentido antes. não sei se as pessoas a minha volta percebem. me sinto cansada e também não sei se as pessoas notam.

tem tanta coisa, tanto barulho aqui. venho tentando silenciar alguns deles, tentando abrir espaço pra aquilo que é verdadeiramente importante.

coincidências da vida


venho seguindo em frente. penso em você de vez em quando, mas hoje pensei mais do que vinha pensando. já não conto tão frequentemente as horas do relógio, colocando cinco horas a mais. mas hoje fiquei com vontade de falar com você, de ouvir sua voz.

queria te dizer que vi aquela semana de culinária da qual você havia me falado e sobre a qual eu havia imaginado de mil jeitos possíveis. todos envolviam você. vai ser alguns dias depois do seu aniversário. eu ainda lembro a data dele.

achei uma coincidência: pensei em você tanto hoje e hoje mesmo divulgam esse evento.

achei maior coincidência ainda quando vi que hoje, mais de 20 dias depois que te enviei a última mensagem, você a visualizou. não sinto rancor ou mágoa por isso.

já não dramatizo também a nossa história. foi o que foi e ponto.

mas a verdade é que de vez em quando ainda sinto sua falta, sinto vontade de falar com você e te contar sobre o que eu tenho pensado. queria te ouvir falar do que você tanto gosta pra poder me lembrar de que é possível fazer o que a gente gosta na vida. queria te ver enquanto fala, porque os seus olhos falam mais do que as suas palavras e até hoje eu me lembro do quanto eles brilhavam. saudades disso. saudades do seu perfume. saudades do seu jeito meio desligado e despreocupado. saudade de como você interagia com os estranhos.

não queria que a gente tivesse parado de se falar assim.

mi manchi.

eravamo proprio belli insieme


costumava escutar uma música, que dizia a frase acima, antes mesmo de te conhecer. mas é apenas agora que ela faz sentido. me perco em memórias e sou arremessada para a nostalgia. abro a caixa das lembranças e sinto a tristeza por algo que já não está. sinto vontade de viver tudo aquilo de novo com você. queria poder, queria saber como anda você e se vez ou outra ainda pensa em nós dois.

apesar da tristeza, sigo viva e continuo a tecer os fios que compõem a minha vida. percebo que tenho tecido, que tenho fios soltos, e que posso decidir como tecê-los: que libertador! não preciso voltar para o lugar conhecido, permanecer no esconderijo, decretar sentença e voltar pra personagem protagonista de uma história que não é a que eu quero viver.

mas é verdade: eramos bonitos juntos. você dizia, eu dizia, meus amigos diziam e os seus também. que saudades de você. não queria que estivéssemos assim, tão afastados. mas não é como se eu não tivesse tentado, mas é que agora já entendo o que antes era atuado: quando o outro parece não querer, não se há que forçar. há que se fazer uma outra coisa, uma coisa que ninguém ensina, mas que a gente é que precisa de linha e tecido pra descobrir o que é.